sábado, 5 de janeiro de 2013




VIA-SACRA EM AZULEJOS

Nota do blogue: Gostei muito dessa Via-Sacra artesanal (azulejos), porém fui procurando uma por uma na internet e infelizmente faltou uma, a estação IX, que não encontrei de jeito nenhum. Se por acaso algum leitor conseguir essa façanha, por favor, mande-me por e-mail. Achei que valeria a pena disponibilizá-las mesmo não estando completa. Espero que gostem.

P.S: Agradeço a alma generosa que me enviou a imagem que faltava, Deus lhe pague. (atualizado no dia 09/03/2012)

VIA-SACRA

















FICO ENTERNECIDA TODAS AS VEZES QUE REZO A VIA-SACRA, UMA DE MINHAS PAIXÕES!



Por uma missionária anônima do Instituto das Missionárias de Jesus Crucificado
O Bom Combate na Alma Generosa
1ª. Edição



Senhor! É obra de misericórdia consolar os que choram, dar de comer a quem tem fome, visitar os encarcerados.

Ah! Senhor, sois Vós aquele que brada no fundo dos tabernáculos: Meus filhos, estou chorando de saudades. Há tanto tempo, que alguns de meus filhos, se afastaram de mim... outros não conhecem seu pai!... Que saudades! Como isso me dilacera a alma!...
Eu te disse, é obra de misericórdia consolar os que choram; consola, então, meu coração amargurado, enxuga minhas lágrimas! Ah! é essa porção querida de cândidos lírios, que mitiga minha cruenta dor!
Ah! filhinha, se não fosse essa porção querida, a justiça de meu Pai teria desabado sobre a humanidade ingrata!
Neste sacramento de amor, onde permaneço dia e noite sinto necessidade de um pouco de alimento, e o meu alimento é fazer o bem, alimentar meus filhos com a minha própria carne! Eu te disse, é, obra de misericórdia dar de comer a quem tem fome, e vós, porção querida, lírios do meu jardim, podeis suprir esses corações ingratos, que não me dão a esmola de seu amor!... Filhinha, Eu sou teu mendigo! Tenho tanta fome, tanta sede, tenho frio, estou nu! Deixei meu tesouro para vir morar em vossas casas! Apesar de tanta indigência, sinto-me satisfeito por morar com os filhos dos homens, porque o meu desejo é fazê-los a todos felizes. Dizei a todos cândidos lírios de meu jardim, que estou com fome, que é obra de misericórdia matar a fome de um pobre mendigo, que se acha às suas portas! ...
Sim, Eu estou à porta de cada um de meus filhos, onde ao mesmo tempo me acho prisioneiro! É obra de misericórdia visitar os encarcerados? Vosso Deus, o vosso amigo, o vosso Pai se acha na prisão à espera da vossa visita! ... Ó ingratidão de um filho que vê seu pai na prisão e não o vai visitar! ...
Eu, prisioneiro, porque cometi o crime de vos amar com loucura! Este crime, filhinha, me mereceu a sentença de ficar prisioneiro até o fim dos séculos; sentença irrevogável, não há apelação até o fim dos séculos! ...
Vosso amigo na prisão, isto não vos entristece o coração?! Vosso pai prisioneiro não dilacera a vossa alma?!... Direis vós: O culpado fui eu, cometi um crime, agora só me resta cumprir à risca minha sentença! Filhinhas, vede um Deus sentenciado!... Sim, sentenciado!... Condenado a uma longa e dura prisão!... Sim ela se torna dura quando os filhos queridos não me vêm visitar! Quando vejo porem os cândidos lírios, minhas esposas, se aproximarem de mim, desaparece a dura prisão e se torna o sacrário um paraíso! Quando estas cândidas donzelas vem a mim com as vestes mais alvas que a neve, no meio dessa brancura acho minhas delicias! Ah! então, filhinha, mato minha sede, sacio minha fome, enxugo minhas lágrimas. Dai-me uma nova veste, cicatrizai minhas chagas abertas pela ingratidão dos filhos, que não me vem visitar!

Jesus do Calvário, prisioneiro por amor dos homens.
19-2-1930 ( BLOG: A GRANDE GUERRA)



RESPEITO HUMANO PARTE I
Cônego Júlio Antônio dos Santos
O Crucifixo, meu livro de estudos - 1950

8. - Respeito humano


Que é o respeito humano?


É a vergonha daquele que não se atreve a manifestar os seus sentimentos religiosos e piedosos, porque com isso é escarnecido, insultado, perseguido.


I - Natureza do respeito humano

O respeito humano é o respeito pelas coisas humanas colocado acima do respeito pelas coisas de Deus; é a estima pelo homem preferida à estima por Deus.
O respeito divino coloca-nos na presença de Deus a quem devemos conhecer, amar e servir porque é nosso Criador, Senhor, Juiz e Remunerador.- O respeito humano é a negação de tudo isto. Transfere sacrilegamente para o homem os direitos e a honra que são reservados a Deus. O homem é considerado como senhor e juiz, e, por isso, toda a vida exterior é para lhe agradar.


II - Aspectos diversos do respeito humano


O respeito humano reveste tantas formas quantos são os nossos deveres.


1.º Omissão do bem. - O respeito humano impede a prática sincera e fiel da nossa fé, fechamos a boca quando é preciso falar, e paralisa os nossos esforços quando é preciso agir.
Sabemos que a santa Missa é uma fonte de graças desde que assistamos a ela com edificação; todavia, na assistência à missa não estamos com a devida atenção e fervor, porque não queremos dar nas vistas com a nossa devoção.
Encontramos na comunhão uma grande força contra os inimigos da nossa salvação, um ódio ao pecado, um zelo ardente para o bem, uma garante de perseverança; todavia, não nos aproximamos muitas vezes deste banquete divino, porque tememos que nos censurem.
Queremos fazer progressos na piedade e na virtude; mas para isso é preciso frequentar a confissão a fim de alcançarmos o perdão das nossas faltas, recebermos conselhos úteis e uma direção salutar; todavia, não nos confessamos com frequência porque tememos que escarneçam de nós.


2.º Corrupção do bem. - O respeito humano infecciona tudo, mesmo o bem. Para que as nossas ações boas sejam meritórias devem ser feitas com intenção de agradar a Deus. Ora o respeito humano inclina-nos e decide-nos a praticar o bem para agradar às criaturas. Portanto, o respeito humano tira o caráter sobrenatural às nossas ações. Dá preferência do homem a Deus.


3.º Prática do mal. - O homem levado pelo respeito humano chega mesmo a praticar o mal para agradar os maus. Um companheiro aproxima-se de nós, convida-nos para os bailes, para reuniões profanas, para lugares perigosos e deixamo-nos arrastar pelo maldito companheiro até à boca do inferno e não temos coragem de lhe dizer secamente: não quero vai tu só.


4.º Jactância do mal. - O respeito humano faz mesmo com que o homem se glorie com o mel que fez e até mesmo se glorie com faltas que não cometeu.


5.º O respeito humano é um mal universal. - Um outro caráter do respeito humano é a sua universalidade. Por exemplo, o mentiroso, o voluptuoso, o colérico, têm estas paixões próprias: inimigos da verdade, da castidade, da mansidão; mas, no campo do respeito humano são inacessíveis a qualquer virtude. O respeito humano não apresenta o aspecto de um defeito particular, torna-se o foco de todos os vícios. Escravo do respeito humano, o homem é capaz de transgredir todos os mandamentos de Deus e da Igreja, faltar a todos os deveres e praticar todo o mal.


III - Motivos do respeito humano


1.º O mundo tem horror à verdade e ao bem - O mundo tem horror à verdade e ao bem e aos que representem estas coisas.
O ideal do mundo é o mal. Ora o mal é a negação do bem.
Moisés, que suportou tantas fadigas no governo de seiscentos mil homens a ouvir as suas queixas e a apaziguar as suas discórdias, quando esperava do seu povo louvores e agradecimentos, ouve da boca de um pastor estas amargas palavras: és néscio e doido em tomares sobre ti tantos negócios!
Vati, esposa de Assuero, a qual devendo ser louvada pela compostura e modéstia, porque recusou fazer, alarde da sua formosura perante a multidão dos convidados, tiveram-na unicamente por cabeçuda e teimosa.
Como queremos que os maus nos não tenham aversão se as nossas ações são uma repreensão contínua ao seu mau viver? Com a nossa piedade confundimos a sua falta de religião, com a nossa honestidade a sua dissolução, com a nossa caridade a sua avareza. Miram-se em nós como em espelhos e vêem esses infelizes todas as suas fealdades. Que admira, pois, que nos desprezem, que nos escarneçam e maltratem, semelhantes ao camelo que, em vendo água clara e nela a sua enorme fealdade, revolve-a com os pés até turvá-la completamente.
“Os ímpios abominam os que andam pelo caminho reto.” (Prov, XXIX, 27).
Assim como somos naturalmente levados a desculpar nos outros aquelas faltas que reconhecemos em nós mesmos, assim também, infelizmente, nos sentimos inclinados a desaprovar, ou, pelo menos, a desprezar nos outros as virtudes que não temos força de praticar.
Eis aqui a verdadeira razão pela qual os maus murmuram das pessoas virtuosas.


2.º O mundo quer perder as almas- O mundo sorri sarcasticamente e escarnece dos que têm religião e piedade porque ele quer prender e matar como outrora. Ele diz e faz como os irmãos de José: “Que quer este sonhador? E concluíram? Lancemo-lo numa cisterna.”
O cristão não deve temer o opróbrio dos homens. Nolite timere opprobriun hominum. Um cristão deve manifestar que há nas suas convicções uma força maior do que todas as paixões dos adversários.


IV - Gravidade do respeito humano


Consideremos a gravidade do respeito humana em si mesmo e nas suas consequências.


1 - O respeito humano é a preferência do homem a Deus


O respeito humano é a ruína da ordem e da perfeição, porque desvia o nosso pensamento, a nossa atenção de Deus para as criaturas. A razão e a fé dizem: Deus é o fim e o motivo de todos os nossos atos. O respeito humano diz: só devemos ter consideração pelo homem, pelos seus gostos, pelas suas opiniões, pelos seus caprichos.


2 - O respeito humano é uma fraqueza


O padre Ventura afirmava energicamente: “Ocultar os sentimentos da verdadeira fé, envergonhar-se de cumprir publicamente os preceitos, não é senão uma fraqueza, a maior de todas as fraquezas. É por isso que se encontra comumente nas almas pequenas.”


3- O respeito humano é uma fraqueza vergonhosa


Deus deu-nos um guia seguro, um juiz infalível das nossas ações, é a consciência que nos ilumina e dirige em todos os nossos passos, nos louva ou censura conforme praticamos bem ou o mal.
O escravo do respeito humano segue uma luz, obedece a uma outra regra. A sua luz e a sua regra é a opinião e o capricho de alguns homens.


4 - O respeito humano é uma fraqueza muito prejudicial à salvação


O respeito humano inutiliza os meios tão poderosos e eficazes de que Deus se serve para nos atrair a Si. Convida-nos pela sua graça a uma vida mais regular e mais santa e nós mesmos temos bons desejos de abraçar esta vida. Porque resistimos às solicitações da graça? É o respeito humano que impede a ação da graça e asfixia a nossa boa vontade.


5 - O respeito humano é uma traição


Devemos edificar uns aos outros. O que tem mais luz, mais virtude, deve irradiar estes bens em volta de si. Nosso Senhor Jesus Cristo diz: “Vós sois a luz e o sal da terra: luz que deve combater as trevas; sal que deve impedir a corrupção.” Ora o respeito humano contraria, destrói esta disposição de Deus, impede que a luz irradie, apaga-a, corrompe o sal; ajuda as trevas e o mal a espalharem-se por toda a parte.


6 - O respeito humano é a abdicação da personalidade humana


Deus determinou que o homem se conduzisse pela sua consciência esclarecida pela lei divina, é nisto que está toda a sua dignidade de homem. Ora o homem que se deixa arrastar pelo respeito humano não pensa, não fala, não opera por si mesmo, segundo a sua consciência, torna-se escravo dos outros, pensa, fala e faz como eles. Pode conceber-se alguma coisa mais destruidor da dignidade ou personalidade humana? Não.


7 - O respeito humano é a abdicação da dignidade de cristão


Um cristão pode dizer com São Paulo: “Eu vivo, mas verdadeiramente não sou eu já que vivo, é Jesus Cristo que vive em mim, é Jesus Cristo que pensa, fala e opera em mim.” Ora o cristão possuído do respeito humano é um discípulo indigno, tem o nome de cristão e não se deixa conduzir por Jesus Cristo: Poderá dizer: eu vivo, mas não sou eu que vivo, é o tal companheiro insensato, todo ele é que vive em mim. Eu abdiquei da minha alma para substituí-la por uma alma desvairada, estúpida.


8 - O respeito humano é uma escravidão vergonhosa


Se alguém quisesse fazer-nos uma observação sobre qualquer dos nossos defeitos dir-lhe-íamos: Não se meta onde não é chamado. Porém atacam as nossas virtudes e boas qualidades e temos a baixeza de nos envergonhar de as defender.


9 - O respeito humano é uma apostasia infame.


“Foi o respeito humano que fez morrer o Filho de Deus. Pilatos teria sido inabalável às instâncias e gritos dos Judeus que pediam a morte de Jesus por estar convencido da inocência do Salvador, e da injustiça deles, mas apenas o ameaçaram com César, toda a sua firmeza não pôde vencer o temor de desagradar a César. Ó respeito humano, exclama alguém, em quantos corações tens dado a morte a Cristo, e em quantos não O tens deixado nascer! Deixamos de ser de Deus ou receamos ser d'Ele, pelo temor do juízo dos homens”. Quem quiser ser amigo deste mundo perverso declara-se por isso mesmo inimigo de Deus.


10 - O respeito humano é causa de condenação eterna


1.º Condenação dos homens. - Ozanam, quem aconselhavam um dia uma prudência muito tímida nas manifestações da sua fé, respondia: “Não, eu não ganharei nada em dissimular as minhas convicções; não adquiro a confiança daqueles que me conhecem e perderei a da juventude que me considera; isto é, não obterei a estima dos maus e perderei a dos bons”.
O cristão fraco, tímido, engane-se nos seus cálculos, e acaba inevitavelmente por ver recusar o que tem sido objeto de todos os seus sacrifícios, o respeito dos outros. Aquele que falta aos juramentos de fidelidade a Deus não pode oferecer nenhuma garantia na confiança dos homens.


2.º Condenação de Deus. - No dia de juízo a sentença pronunciada sobre nós dependerá da maneira como tivermos compreendido o respeito humano e o respeito divino. “Eu confessarei, diante de meu Pai, aquele que me confessar diante dos homens, diz Jesus, e envergonhar-me-ei diante de meu Pai, daquele que se tiver envergonhado de mim diante dos homens”.
Jesus abomina, condena o mau cristão que recusou reconhecer a Sua soberania.


Respeito humano, parte II


Cônego Júlio Antônio dos Santos

O Crucifixo, meu livro de estudos - 1950


V - Preparação para a luta contra o respeito

1-      Estudo

Há uma grande falta de noções precisas e firmes sobre a religião. Devemos, pois, fazer um estudo pessoal, graduado, perseverante sobre Deus, Jesus Cristo e a Igreja, e sob a direção da mesma Igreja.

2-      Reflexivo

Todo o estudo deve ser acompanhado de reflexão. A reflexão, diz Rouzic, é atmosfera intelectual que permite à verdade arreigar-se em nós. Doutro modo, a verdade fica em nós à flor da alma como uma semente lançada à superfície do solo e que é levada pelo vento.

3-       Divisa

Devemos tomar uma divisa que encara, por assim dizer, a alma destas reflexões divinas, que devemos trazer muitas vezes à lembrança, sobretudo nas horas de luta; como por exemplo: Non erubesco Evangelium, eu não me envergonho do Evangelho: ou esta outra: Mihi autem pro minimo est ut a vobis judicer, não faço caso algum dos vossos juízos a meu respeito. Assim falava com altivez São Paulo diante dos gregos e dos romanos, diante da sua civi1ização e das suas divindades. “O meu Deus e a minha  consciência eis os meus únicos juízes”.

4-       Aliança

Os aliados do cristão são Deus e o próximo. Deus.
- Deus é aliado de todo o homem. Todavia, para vir a nós e nos armar com a Sua força, devemos recorrer:

1.º A oração. - A oração é o tratado de aliança que determina a assistência divina. A oração põe a força de Deus à disposição da fraqueza humana, sobretudo a oração ao Espírito Santo, o inspirador do heroísmo dos confessores e mártires. A recitação piedosa e ardente doVeni Sancte Spiritus ou do Veni Creator dá à nossa alma um banho de energia e daí sai pronta para todos os combates.

2.º A comunhão. - Pela comunhão digna, fervorosa, frequente, colocamos a força de Deus dentro de nós; e então podemos exclamar com São Paulo: Cum infirmor tunc potens sum; Omnia possum in eo qui me confortat, sou fraco e sou forte, tudo posso nAquele que me conforta.

3.º Tradições de família. - Depois de Deus temos o nosso próximo como aliado. Há homens maus ou fracos que nos provocam às ações do respeito humano. Há também homens fortes na virtude que nos encorajam ao respeito divino. Dos nossos antepassados para nós e de nós para os nossos descendentes há laços de solidariedade. A educação recebida, o exemplo dado por nossos pais são outras tantas vozes a incutir-nos coragem no cumprimento dos nossos deveres religiosos e assim como nós o seremos para os nossos vindouros.
Pertencemos a famílias católicas de quem temos recebido sublimes lições e grandes exemplos que devemos seguir e imitar para não degenerarmos.

VI - Luta contra respeito humano

1-      Defesa

Quando estamos numa conversa em que a religião, a piedade, a caridade, a pureza ou outra virtude cristã são atacadas ou metidas a ridículo ou quando nos é proposta a prática de um ato que a nossa consciência reprova, três atitudes são possíveis: o silêncio reprovador, o afastamento, a ofensiva.
A abstenção silenciosa basta às vezes para mostrar que não se pactua com o erro e para protestar contra o mal.
O afastamento, o abandono de uma má companhia, onde a lei de Deus é transgredida é também um protesto contra o mal. A liberdade de se ir embora, de se afastar, dizia Lacordaire é antes de tudo, liberdade de um homem que tem sentimentos nobres; e desgraçado daquele que a não possui, ou que se não atreve a fazer uso dela.

2-       Ofensiva

A ofensiva, a resposta, é o terceiro meio de resistir. Quando, pois, são atacadas as verdades em que nós acreditamos ou as virtudes que praticamos, o dever é, muitas vezes, reagir diretamente, ripostar. Uma resposta bem dada, anima os bons, abala os indecisos, ganha os indiferentes e lança, no espírito dos maus centelhas de luz que lhes mostram o bom caminho e que, em tempo oportuno, seguirão, porque, graças a Deus, a verdade e o bem tem os seus triunfos.
Em 1844, Montalembert dizia na Câmara dos pares: “Nós somos filhos de mártires, não temos medo dos filhos de Juliano Apóstata; somos descendentes dos cruzados, não recuamos diante dos descendentes de Voltaire.”
Os maus, muitas vezes, não falam, não operam, não triunfam senão devido à abdicação dos bons que se calam, que tem medo. Basta proclamarmos altivamente: sou cristão! Esta palavra tem vencido o mundo e vence e desarma os nossos inimigos.
Quando se quer verdadeiramente ganhar terreno e obter a vitória final é preciso tomar a ofensiva.
Nas lutas morais como nas guerras entre as nações os triunfos decisivos pertencem aqueles que tomam a ofensiva. Não devemos, pois, dissimular a nossa bandeira, mas mostrá-la ostensivamente; não deixemos de praticar um ato religioso, mas façamo-lo com toda a perfeição e com reta intenção, isto é, para maior glória de Deus.
Por quanto tempo da nossa vida durarão tais insultos e tão trabalhoso viver? Até ao dia de juízo e não mais. Neste grande dia que regozijo o nosso em estarmos de rosto firme e maravilhosa constância acusando os que nos atribularam e oprimiram.
Sabeis o que me lembra quando trato de representar essa alegria! Afigura-me ver Noé encerrado na arca misteriosa.
Nunca homem algum foi tão insultado como o bondoso Noé, Vivendo no meio de um povo desenfreado, sem Deus, sem mandamentos, sem vergonha, brilhava em toda a espécie de virtudes e por isso era escarnecido ou insultado por todos.
Quando, porém, Deus mandou a Noé que construísse uma arca ou casa flutuante para nela se refugiar e salvar do dilúvio universal: Oh! que ocasião esta para gracejarem com o servo de Deus.
Quando viram passar anos e anos, e Noé cada vez mais afadigado na construção da arca, e sem o menor vestígio de castigo apesar das tremendas ameaças de Noé, em nome do Senhor, oh! então reuniam-se em volta da arca, escarneciam do santo velho, chamando-lhe, à boca cheia, mentiroso e doido! E ao verem depois que, muito à pressa, se metia na arca com toda a sua família, como cresciam as chutas e gargalhadas, os gracejos e insultos! - Olhe o dementado velho, nem ao menos quer respirar livremente o ar que Deus lhe concedeu, ele mesmo preparou a sepultura e se enterra em vida. Com certeza é doido: teme que as águas o afoguem e não teme que o despedacem as feras, leões e tigres! Nestes e semelhantes termos escarneciam de Noé enquanto ele entrava para a arca. Tão cegos estavam e tão empedernidos eram os seus corações.
Quando, porém, dali a sete dias, começou a chover torrencialmente, a transbordarem os rios, a espraiar-se o mar, e as águas elevarem-se acima das mais altas montanhas, que cena tão diferente da primeira, que sentimentos tão contrários! Entre o fragor das tempestuosas nuvens que parecia o estrondo de cem batalhas, entre o sibilar dos ventos que, gemendo tristemente, pereciam lamentar a agonia do mundo entre a gritaria dos que fugiam e o clamor dos que se afogavam e os ais dos que por toda a parte morriam, diz Segneri, só a arca do varão justo ia intrépida entre tantos sobressaltos e segura no meio da desolação universal: não é um cárcere de ignomínia é um carro triunfal.
Às sortes estão trocadas e mudadas a fortuna. Vós escarneceis de mim, dizia o servo de Deus, porque não tomava parte nos vossos torpes passatempos; motejáveis de mim com delírio porque me fui encerrar neste cárcere; agora é tempo de eu escarnecer de vós, vendo-vos sumir como o chumbo no fundo do mar.
Não é mais invejável a sorte de Noé do que a sorte dos malvados escarnecedores? Tal será, pois a nossa sorte se permanecermos firmes entre os escárnios dos maus. Riem-se agora de nós porque recusamos fazer-lhes companhia nas festas e diversões, motejam-nos porque preferimos passar os dias encerrados em casa ou nalguma igreja, a passear por praças e jardins atrás das vaidades do mundo ou do desenfreamento da carne.
Mas ai! Quão breve é o seu riso! Quão passageiras as suas zombarias!
Quando estalar aquela tempestade, não de água, mas de fogo, onde se refugiarão os infelizes!
Quererão alcançar um cantinho na nossa arca, mas em vão.

VII- Vantagens da vitória sobre o respeito humano

Mostramos que somos cristãos. - Nós, cristãos, por quem Jesus Cristo deu a Sua vida, a quem Jesus Cristo trata não como servos, mas como amigos, devemos preferir a qualidade inestimável e o belo nome de cristão, a toda a glória humana; devemos confessar publicamente o Seu santo nome não somente no conselho dos justos, mas ainda, e principalmente, no meio da assembléia dos pecadores; cumprir a Sua lei, praticar os nossos deveres sem temores, nem respeitos humanos. 
Quais são as ameaças ou os suplícios que detém um cristão na confissão da sua fé, no serviço de Deus? 
Ameaçado de lhe tirarem os bens, São João Crisóstomo responde: tudo o que possuo é dos pobres; tirando-mos não fazeis injustiça a mim, mas aos pobres; ameaçado na sua liberdade responde: Eu beijarei com amor as cadeias que me prendem porque ao menos sou livre em Jesus Cristo; ameaçado de exílio responde: A minha verdadeira pátria é o Céu; ameaçado na sua vida responde: Chegarei mais depressa ao Céu, a ver a Deus, único fim de todos os meus desejos. 
E esta atitude de São João Crisóstomo tem sido a de doze milhões de mártires e de uma multidão inumerável de cristãos a quem nem a pobreza, nem o pecado, nem a morte, nem a fraqueza, nem as cruzes, nem os dentes das feras podem levar a praticar um ato de condescendência reprovado pela sua consciência; - Nego a Cristo! 
- Os cristãos fracos temem um sorriso à flor dos lábios, uma troça. 
Durante as perseguições dos primeiros séculos do Cristianismo, um humilde cristão foi preso e conduzido diante da estátua de Júpiter. Dizem-lhe aí:
- “Lança incenso no fogo e sacrifica aos nossos deuses!”
- “Não!” responde ele energicamente. 
Começam a torturá-lo; não se queixa. Levantam-lhe o braço de maneira que a mão fique, precisamente, em cima da chama e põem-lhe incenso na mão:
- “Deixa cair o incenso e deixamos-te ir em liberdade!”
- “Não!” responde ainda Barlaam. E fica imóvel de braço estendido. 
A chama eleva-se e começa a lamber a mão; o incenso fumega já; mas o homem não se move. A mão queima-se com o incenso, mas Barlaam prefere o martírio a renunciar à sua fé, ao seu Deus. - Um coração de bronze! 
Quando Madalena soube que Jesus se encontrava em casa de Simão, tomou um vaso de alabastro cheio de aromas e foi a toda a pressa derramá-lo sobre a cabeça do Salvador. E logo começaram muitos a murmurar, a indignar-se, a ranger os dentes, dizendo: Ut quid perditio haec? Para quê este desperdício? Quantos pobres morrem de fome e de frio e que ela poderia alimentar e vestir, se, em vez de ir comprar aromas, fosse comprar pão e agasalhos para os pobres! Ela que tinha gasto tanto dinheiro em jóias, banquetes e diversões! Pensais que então algum lhe chamava esbanjadora, cara a cara? Pelo contrário, todos aplaudiam os seus excessos. Quando, porém, faz das suas profanidades um ato de culto ao seu Deus a quem tão tarde começou a amar, eis que imediatamente se soltam as línguas em mil afrontas, assanham-se contra ela e ultrajam a pobre mulher. 
Vejamos, por aqui, quanto parecida foi, em todos os tempos, a sorte daqueles que se resolveram a voltar as costas ao mundo e servir generosamente a Jesus Cristo. “Todos aqueles que querem viver piedosamente em Jesus Cristo, diz o Apóstolo, hão-de sofrer perseguição.” (II Tim. III, 12). 
Tornamo-nos semelhantes a Jesus Cristo. - Na vida de Santo Henrique Suso conta-se que o servo de Deus fazia as mais ásperas penitências; mas, em certa ocasião, disse-lhe Deus que ainda tinha de sofrer coisa de maior merecimento e custo e que, para saber o que era, abrisse a porta da cela. Assim o fez. E viu no dormitório um cão com um trapo na boca e umas vezes o mordia e outras vezes o lançava para um canto. Disse-lhe Nosso Senhor que se dispusesse a ser tratado como aquele trapo e aprendesse dEle a sofrer, ainda que o desprezassem e mordessem com injúrias. 
Começaram, em breve, as perseguições e aos olhos do mundo, parecia um trapo desprezível, mordido dos cães furiosos e aos olhos de Deus, era uma pedra preciosa de muito valor que com aqueles golpes ficava cada vez mais polida. 
Porque é que valem mais as perseguições e injúrias sofridas com humildade e paciência do que penitências feitas com rigorosa austeridade? É que assim nos tornamos mais semelhantes a Jesus Cristo. Foi humilhado na Sua divindade na Sua alma e no Seu corpo. 
Portanto a tinta das injúrias, que a muitos só parece lançar no crédito, é na verdade, a tinta com que se tem feito preciosas cópias e retratos de Jesus Cristo.
Alcançamos muitos méritos. - Qual foi o principal merecimento do patriarca Abraão no seu sacrifício? Foi a obediência pronta, heróica, em executar as ordens de Deus? Não: o principal mérito do santo patriarca consistiu em não olhar ao que dirão, em desprezar com espírito magnânimo os ditos a que a sua obediência o expunha.
Vendo-o tomar o cutelo, diriam: aquilo é um bárbaro: vendo-o descarregar o golpe, sem derramar uma lágrima, sem lançar um ai, sem desviar sequer o rosto, acrescentariam: aquilo é um tigre e não um homem, um algoz e não um pai! 
Não temeu, diz São Zenão, que o tivessem por cruel e filicida: antes, para mostrar a sua submissão, alegrava-se de Deus, Nosso Senhor, lhe ter ordenado sacrifício tão penoso. Está nisto o incomparável mérito do grande patriarca. 
Imaginemos que todo o mundo em vez de nos escarnecer e motejar nos louva e aplaude por sermos cristãos. Neste caso, quem deve e a quem? Deus a nós ou nós a Deus? “Os devedores, somos nós a Deus, diz São João Crisóstomo, devedores lhe somos da honra que nos tributam; mas se somos escarnecidos e motejados por Sua causa, Deus se faz nosso devedor.” Que coisa podemos desejar mais do que ter próprio Deus por devedor? Deus paga, cento por um, neste mundo e depois, o reino dos Céus. 

Reflexões e resoluções. - Agora, com os olhos da minha alma fixos em Jesus Crucificado, faço reflexões sobre a virtude sobrenatural da fé e tomo as resoluções de desenvolver e aperfeiçoar em mim esta grande virtude pela oração, dizendo com os Apóstolos: Senhor, aumentai em mim a fé; pelo exercício constante praticado, frequentes atos de fé como está escrito: “O justo vive da sua fé” e de professar sem temores nem respeitos humanos, de maneira que à hora da minha morte possa repetir como o Apóstolo São Paulo: - Cursum consummavi, fidem servavi; cheguei ao fim da minha vida e, durante toda ela, mostrei por obras que fui sempre verdadeiro cristão.
Maria Santíssima, minha boa Mãe, ajudai-me a ser fiel a estas resoluções. Assim seja.

Gemma e seu Santo Anjo da guarda

Na manhã do dia 25 de março, Jesus se fez presente à minha alma mais vezes: sentia um recolhimento interno, que por graça de Deus nada podia me distrair; ao meio dia sinto que o meu anjo me bate no ombro e me diz: «Gemma, venho em nome de Jesus a exaurir a sua promessa». Não sabia o que pensar; fiquei admirada em escutar aquelas palavras. “«Filha» acrescentou, «eu sou o teu guarda, mandado da Deus; eu venho para fazer-te entender um mistério, maior que todos os outros mistérios”.” Era estupefata, ainda não entendia... O meu anjo percebeu e me disse: “Lembras, 12 dias atrás, aquilo que te prometi”?. Pensei e logo me veio a mente. "Sabes, oh minha filha, que eu te falarei sobre Maria Santíssima, de uma moçinha tão humilde diante do mundo, mas de uma infinita grandeza diante de Deus; te falarei da mais linda, da mais santa de todas as criaturas; da filha predileta do Altíssimo, daquela que vinha destinada à incomparável dignidade de mãe de Deus".
... Era já noite adentro e Maria Santíssima estava sozinha no seu quarto: rezava, era toda compenetrada em Deus. De repente aparece uma grande luz naquele mísero quarto e o arcanjo, transformando-se em corpo humano e circundado da um numero infinito de anjos, vai perto de Maria, reverente e majestoso. A reverência como Senhora, sorri a ela como anunciador de uma bela noticia e com doces palavras assim lhe diz: "Ave, o Maria, o Senhor é com ti. A bendita tu és entre todas as mulheres". O belo, o grande e sublime augúrio, que na terra nunca se escutou nem se escutará jamais!
..."Apenas o arcanjo celeste pronunciou estas palavras, silenciou, quase esperando o sinal dela para explicar a sua divina embaixada. Maria, porém, escutando a surpreendente saudação, se inquietou; se calou e pensava. Mas talvez crias, ó filha minha, que a Maria não tivessem descido os anjos do paraíso? Ela a cada momento gozava da visita e dos doces colóquios... Ela não vai investigar na sua mente o significado misterioso, mas se inquieta porque; acredita ser indigna da saudação Angélica. Ah! Filha minha", me repetia, "se Maria tivesse sabido quanto a sua humildade fosse de agrado ao Senhor, não se teria sentido indigna dos obséquios de um anjo. "Como, dizia para si mesma, "um anjo de Deus me chama cheia de graça, enquanto eu me reconheço não merecedora de qualquer divino favor? "Como, pensava Maria, "um anjo do paraíso me chama bendita entre as mulheres, enquanto sou entre as mulheres a mais inútil, a mais vil, a mais abjeta? Qual mistério se esconde atrás do véu desta sublime saudação?...
"À saudação do anjo, Maria não havia dado nenhuma resposta; então Gabriel para acalmá-la repetiu: “Não temer, o Maria, tu és a única que encontrou graça diante o Altíssimo”. Deste momento conceberás no teu seio um filho, o chamará com o nome de Jesus e da todos será chamado Filho do Altíssimo: a ele será dado o trono de Davi, reinará em eterno e o seu reino não terá fim". Com estas sublimes palavras o arcanjo explicou tudo o que devia a Maria... "O anjo já havia manifestado à Virgem o mistério da grande missão, isto è, que ela estava para ser a mãe do Filho do Altíssimo. Mas ela, olhando na direção do anjo, lhe disse: "E em que modo poderá acontecer isto, se eu conservo o meu candor virginal?”(Já tinha sido prognosticado por Isaias, que dizia que o Cristo devia nascer da mãe virgem)... Saiba, aqui me disse o meu anjo, "que Maria Santíssima, com um exemplo jamais ouvido, desde início da sua vida tinha consagrado ao celeste esposo das almas castas a sua flor virginal e, mesmo que não fosse sujeita a tentações, não havia deixado de conservar aos seus lirios entre as espinhas da mortificação.
"Refleti", me dizia, "como Maria Santíssima silenciou a todas as coisas que se referiam ao grande mistério, somente falou e se demonstrou aberta, quando ouviu tratar do seu puro candor e se colocou perto daquele anjo de Deus com doce vontade… Entendeu, ó filha, quanto Maria amasse esta bela, angélica, celeste virtude? Mas quem te acredita que a amasse mais? Jesus ou Maria? Certamente Jesus que nunca teria escolhido uma mãe, se não virgem pura, imaculada. O anjo Gabriel respondeu: “Maria, o Espírito Santo descerá sobre ti, a virtude sublime do Altíssimo te cobrirá; e, porém aquele que nascerá da ti santo será o verdadeiro Filho de Deus”. A este ponto te informo que Isabel, tua parente, na sua velhice concebeu um filho e é já ao sexto mês, aquela que dizia ser estéril porque lembras que a Deus nada é impossível". O anjo Gabriel continuou a Maria Santíssima com estas palavras: "Estai tranquila e consola-te, ó virgem bendita: o divino espirito será aquele que descerá para fecundar as tuas vísceras imaculadas. Oh onipotente virtude do Altíssimo operará em ti um novo prodígio que, conservando ao mesmo tempo a honra de virgem, te dará a alegria de mãe. O santo, que conceberás no teu seio, não será que o Filho de Deus". Com estas palavras o arcanjo Gabriel revelava o arcano, explicava o mistério, tranquilizava Maria.
"Enfim tudo foi feito, não faltava que a última palavra de Maria, porque a virgem fosse mãe de Deus. O Verbo divino, gerado do Pai no esplendor dos santos, não devia ter pai na terra, assim como mãe não teve no céu. E Maria, sendo eleita genitora do Unigênito do divino Pai, se transformava do mesmo Pai, a unigênita filha. Sendo ela a virgem que devia dar os humanos membros ao Verbo divino, era elevada à dignidade de mãe do Filho de Deus. Sendo Maria aquela, sobre a qual teria descido o Espírito Santo, que coberta com a sua virtude onipotente a teria feita mãe virgem de um filho Deus, era por isso elevada à grandíssima honra de esposa ao Espírito Santo. "Explicado o enigma, tranquilizada completamente a virgem, o mensageiro divino silenciava, ansioso esperando a sua resposta, isto é, a autorização de Maria à encarnação do Verbo eterno..”. e responde: "Eis a serva do Senhor, seja feito de mim segundo a tua palavra". Tudo é feito, Maria é a mãe do Filho do Altíssimo. A estas palavras exulta o céu, se consola o mundo inteiro. O anjo reverente se prostra diante à sua senhora e depois pega o voo e volta ao paraíso.
Maria, no ato de aceitar a altíssima dignidade de mãe de Deus, se declarava humildemente serva do Senhor. Esta humildade profundíssima, em que a encontrou recolhida e quase abandonada o anjo do Senhor, não faltou à gloriosa saudação e a mais gloriosa proposta de ser a mãe do Verbo divino. "Maria tinha então proferido o prodigioso fiat, e em um instante, formado do divino Espírito no seu seio, da puríssima virginal substância, um tenro e perfeito corpinho e unindo uma alma humana, se juntaram em simbiose, à divina Pessoa do Verbo. O milagre! Aquele Deus, que não pode ser contido na grandeza dos céus, está dentro do ventre de Maria. Aquele Deus, que sustenta com um dedo a grande máquina do universo, é sustentado pelo puro seio de uma virgem. Quem pode dizer portanto qual seja a grandeza da alegria que inundou e incendiou a alma de Maria naquele feliz momento em que se transformou em mãe do Filho de Deus? O Rei dos Reis, o grande Senhor dos dominantes colocou o seu trono no seio de Maria. Um infinito gaudio inundou Maria, quando se fixou na infinita luz e pode mirar os arcanos esplendores da divindade. "Aceitando Maria a incomparável dignidade de mãe de Deus, aceitava o generoso dever de mãe do humano género. Devemos alegrar-nos: Maria, dando o seu consentimento ao anjo, nos adotou como filhos e se transformou na mãe de todos nós".

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013


MOMENTO REFLEXÃO...


Pauper sum ego, et in laboribus a iuventute mea – “Eu sou pobre e vivo em trabalhos desde a minha mocidade” (Ps. 87, 16).

Sumário. Jamais alguém amou Deus e a própria alma como Jesus ama seu Pai e as nossas almas. Por isso é que Jesus, vendo desde o seio de Maria todos os pecados em particular e conhecendo tanto a injúria por eles feita ao Pai, como os males que deles deviam provir para as nossas almas, sofreu durante toda a sua vida, o martírio mais doloroso. Mas se Jesus se afligiu a tal ponto por pecados que não eram seus próprios, é mais do que justo que nós também nos aflijamos, que os havemos cometido.
I. Considera que todas as penas e ignomínias, que Jesus sofreu em sua vida e na morte, lhe eram presentes desde o primeiro instante da sua vida: Dolor meus in conspectu meo semper (1) – “A minha dor está sempre diante de mim.” Desde o berço Jesus começou a oferecer todas essas penas em satisfação por nossos pecados, principiando desde então a ser nosso Redentor. Ele mesmo revelou a um seu servidor, que desde o começo de sua vida até à morte sofreu, e sofreu tanto por qualquer um dos nossos pecados, que, se houvera tido tantas vidas quantos homens existem, teria morrido de dor igual número de vezes, se Deus não lhe tivesse conservado a vida para sofrer ainda mais. Oh! Que martírio padeceu incessantemente o Coração amante de Jesus pela vista de todos os pecados dos homens! Ad quamlibet culpam singularem habuit aspectum, diz São Bernardino (2). Sim, desde que Jesus desceu ao seio de Maria, cada pecado em particular era-Lhe presente, e cada pecado afligia-O imensamente.
Diz Santo Tomás, que a dor causada a Jesus Cristo pelo conhecimento da injúria feita ao Pai e dos males que do pecado resultariam para as almas tão amadas, excedeu a dor de todos os pecadores contritos. – Com efeito, nunca um pecador amou Deus e a sua alma como Jesus ama seu Pai e as nossas almas. Daí é que o Redentor sofreu, desde o seio de sua Mãe, a agonia que depois padeceu no horto à vista de todas as nossas culpas que tomara sobre si afim de satisfazer por elas. Pauper sum ego, et in laboribus a iuventute mea (3) – “Eu sou pobre e vivo em trabalhos desde a minha mocidade.” Assim predisse o Salvador de si mesmo pela boca de Davi, que toda a sua vida seria um padecimento contínuo. – Donde São João Crisóstomo conclui que nós não nos devemos afligir por outra coisa senão pelo pecado; e que, assim como Jesus passou toda a sua vida em aflição por causa dos nossos pecados, assim nós, que os havemos cometido, devemos estar possuídos de uma contínua dor, pela lembrança de termos ofendido um Deus que nos amou tanto.
II. Santa Margarida de Cortona nunca deixou de chorar as suas culpas. Certo dia disse-lhe o confessor: “Margarida, deixa-te de chorar; o Senhor já te perdoou.” – “Como”, respondeu a Santa, “como poderei dar-me por satisfeita com as lágrimas derramadas e com a dor daqueles pecados que afligiram o meu Jesus Cristo durante a sua vida toda?” – Imitemos esta Santa pecadora, e pensando muitas vezes nos nossos pecados, digamos freqüentemente ao Senhor:
Ó meu Jesus, eis aqui a vossos pés o ingrato, o perseguidor, que Vos fez sofrer durante toda a vossa vida. Mas dir-Vos-ei com Isaías: Tu autem eruisti animam meam, ut non periret: proiecisti post tergum tuum omnia peccata mea (4) – “Tu livraste a minha alma para que não pereça, lançaste atrás das tuas costas todos os meus pecados.” Eu Vos ofendi e Vos traspassei o Coração com tantos pecados, mas Vós não recusastes tomar sobre Vós todas as minhas culpas. Eu por minha livre vontade tenho condenado a minha alma a arder no inferno, cada vez que consenti em ofender-Vos gravemente, e Vós, como preço de vosso sangue, não Vos cansastes de livrá-la e de fazer que não ficasse perdida. Meu amado Redentor, graças Vos dou e quisera morrer de dor ao pensar que tenho ofendido tão gravemente a vossa bondade infinita.
Ó meu amor, perdoai-me e vinde tomar posse de todo o meu coração. Dissestes que não Vos dedignais de entrar no coração de quem Vos abre a porta, e de fazer-lhe companhia: Si quis aperuerit mihi ianuam, intrabo ad illum, coenabo cum illo (5). Se em outros tempos Vos repulsei de mim, agora Vos amo e não quero outra coisa senão a vossa graça. Eis que Vos abro a porta, entrai em meu pobre coração, mas entrai para nunca mais sair dele. Meu coração é pobre, mas entrando nele Vós o fareis rico. Serei rico enquanto Vos possuir, o supremo Bem. – Ó Rainha do céu, Mãe aflita desse aflito Filho, a vós também causei dores amargosas, porquanto tivestes tão grande parte nos sofrimentos de Jesus. Minha Mãe, perdoai-me e alcançai-me a graça de servir fielmente, agora que, como espero, Jesus de novo entrou em minha alma. (II 337.)