sábado, 1 de dezembro de 2012


Maria — Mãe dos Adoradores da Eucaristia (Parte III)



III. A vós, adoradores, também se recomenda: Adorai sempre Jesus Eucaristia, mas a exemplo da Santíssima Virgem, variai as vossas adorações. Relacionai todos os mistérios com a Eucaristia, fazendo-o reviver nela. Sem isto, caireis na rotina. Se o espírito, de vosso amor não for alimentado de uma forma, de um pensamento novo. haveis de vos sentir lânguidos e áridos na oração. Ê necessário, pois, celebrar todos os mistérios na Eucaristia, como fazia a Santíssima Virgem no Cenáculo.

Nos aniversários dos grandes mistérios que se haviam realizado sob os seus olhos, pensais por acaso que Ela não renovava em si as circunstâncias, as palavras e as graças desses mistérios? Na festa do Natal, por exemplo, julgais que Maria não recordava a seu Filho, então oculto sob os véus eucarísticos, o amor de seu nascimento, seu sorriso, suas adorações, bem como as de São José, dos pastores e dos Magos? Procurava, neste como nos demais mistérios, regozijar o Coração de Jesus, relembrando-Lhe o seu amor.

Que fazemos nós com um amigo? Acaso lhe falamos sempre do presente? Não, de certo; evocamos o passado, fazendo-o reviver. E quando queremos cumprimentar o nosso pai ou a nossa mãe, não lhes recordamos o imenso amor, a dedicação constante e generosa que nos prodigalizaram em nossa infância? Pois bem; da mesma forma, em suas adorações no Cenáculo, a Santíssima Virgem repetia a Jesus tudo o que Ele havia feito para a glória de seu Pai; lembrava-Lhe seus grandes sacrifícios, e assim penetrava na graça da Eucaristia. O Santíssimo Sacramento é o memorial de todos os mistérios e renova-lhes o amor e a graça. Deveis à imitação de Maria, corresponder a esta graça, reavivando as ações de Nosso Senhor, adorando lodos os seus estados, e unindo-vos a eles.

A Santíssima Virgem tinha uma atração tão forte pela Eucaristia, que não lhe era possível separar-se do Santíssimo Sacramento; vivendo, portanto, n'Ele e por Ele. Passava os dias e as noites aos pés de seu divino Filho; porém, sem deixar de se entreter com os Apóstolos e os fiéis que A procuravam; seu ardente amor para com o Deus oculto transluzia então em seu semblante, e comunicava seus ardores a todos que A cercavam.

Ó Maria, ensinai-nos a vida de adoração! Fazei-nos encontrar, como vós, todos os mistérios e todas as graças na Eucaristia; reviver o Evangelho, e ler as suas páginas na vida eucarística de Jesus. Lembrai-vos, ó Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento, que sois a Mãe dos adoradores da Eucaristia.





Maria falando ao coração das donzelas                                 
pelo Abade A. Bayle, 1917

I. Não é suficiente a uma virgem cristã preservar-se somente do pecado mortal, a fim de não merecer o inferno, é preciso ainda que se preserve do pecado venial, se deseja que Deus a ame com aquela ternura de afeto que testemunha as almas que lhe são mais queridas. Ah! Se tu conhecesses o valor do amor divino, não terias desejo mais vivo que merecê-lo em toda a sua plenitude se, contentando-te com não o irritar gravemente, te não preservas das culpas veniais que ofendem a sua bondade, se te não preservas dessas mentiras, dessas palavras picantes que arremessas a tuas companheiras, desobediências, curiosidades perigosas, delírios de impaciência, pensamentos frívolos.
Deus detesta os sonhos ociosos, as longas horas perdidas diante do espelho ou nessas futilidades que preenchem a vida de tantas filhas do século. Não me digas que não podes evitar essas culpas. Reconheço que no estado de corrupção em que estás não pode, sem um favor especial de Deus, preservar-te de todas as culpas veniais que podem fazer-te cometer a falta de coragem, a ignorância e a fragilidade humana; mas essas culpas ofendem tanto a majestade de Deus que conhece bem a tua fraqueza. Se não podes evitá-las todas, podes ao menos e deves aborrecê-las. Porém, não podes dizer que detestas aquelas que cometes voluntariamente, a olhos abertos e mesmo com delírio. Tu bem vês por tais erros que não estimas Deus como Ele merece, e que, se te absténs de O ofender gravemente, é apenas o medo do castigo que te estorva. Não terias vergonha de fazer-Lhe os mais graves ultrajes, se o pudesses ultrajar impunemente. Tal é, pois, ó minha filha, o amor que sentes por Deus? Aquele que O ama com um coração sincero e filial, não indaga com subtileza até onde pode chegar sem O ofender gravemente, mas preserva-se de tudo aquilo que pode causar-Lhe desgosto. São os escravos e os mercenários que obram com semelhante precaução.

II. É a pouca importância que tu ligas às culpas veniais, Minha filha, que te faz cometê-las em tão grande número e com tanta facilidade. São pequenas coisas, dirás tu, bagatelas de que não é preciso fazer grande caso; mas se conhecesses a majestade de Deus, não chamarias pequeno um mal que O ofende. O pecado venial, comparado ao pecado mortal, que tem uma maldade infinita, é pouca coisa sem dúvida, mas relativamente ao Deus que ofende, é um mal tão grande, que todo o outro mal deste mundo em comparação dele, nada é. É um mal tão grande, que não se podia cometer, mesmo para impedir a ruína do mundo inteiro. É um mal tão grande que se todos os santos ainda vivos sobre a terra, todos os que reinam já no céu, e todos os espíritos venturosos do paraíso estivesses a ponto de se perder, e que, cometendo um só pecado venial, uma só mentira se pudesse impedir uma tão grande ruína, não se deveria de modo nenhum cometer, conviria antes deixar morrer tudo. A causa é evidente: é que toda a ofensa cometida para com o Criador, por mais leve que seja, é infinitamente mais grave que o bem de todas as criaturas existentes e possíveis. Compreende daqui, Minha filha, se o pecado venial é um ligeiro mal. Entretanto, tu cometestes tantos cada dia e, o que Me aflige ainda mais, acintemente, animas-te, dizendo: - Deus é bom e perdoar-me-á.
Sem dúvida Ele é bom, e se o não fosse, que desgraça seria a tua! Mas por que Ele é bom, ser-te-á permitido ultrajá-lO sem comedimento, ainda que por culpas leves? Deus é bom, mas é justo também. Ora, em virtude da Sua justiça, como trata as almas que, durante a vida, se tem santificado pela prática das mais sublimes virtudes se, depois da morte, são encontradas cúmplices duma culpa venial? Ainda que as ame ternamente, não deixa de condená-las às chamas do purgatório. Vós não saireis mais daí, lhes diz Ele, enquanto não tiverdes pagado a vossa dívida até ao último óbolo. Convém considerar bem, ó Minha filha, que as culpas veniais dispõem insensivelmente ao pecado mortal, como as doenças dispõem à morte, impedindo-te de te dirigires para Deus com o transporte e o amor que sentem as almas que O amam verdadeiramente.
Não sentes tu tibieza, ó Minha filha, quando tens cometido tantas dessas culpas veniais? Não conheces que não podes nesse caso formar um desejo verdadeiramente cheio de amor por Deus, arremessar-te para o lado do teu verdadeiro bem com fervor, aproximar os lábios daquela fonte de toda a consolação, e tirar dela os socorros que fortificam o espírito? O teu coração acha-se oprimido por um peso que o inclina para as coisas da terra e o faz sentir desgostos e enfado pelas coisas do céu. Em tal caso, ama-se, mas não é Deus; fatiga-se e sofre-se, mas com impaciência, sem pensar em oferecer generosamente a Deus as suas dores; reza-se, mas sem devoção: aproxima-se dos sacramentos, mas sem fervor. Além disso, as culpas veniais impedem que Deus se una a ti com aquela abundância de graças que te derramaria se não encontrasse tais obstáculos.
Se as tuas infidelidades veniais te não tornam em objeto de horror para Deus, fazem pelo menos que Ele te olhe com desprazer e desgosto. Elas têm ainda um outro efeito funesto. Multiplicando-se cada dia, enfraquecem sempre mais as forças da tua alma, abrem às paixões uma via mais larga, excitam mais tumultuosamente os sentidos e os instintos desregrados. Então, a fé enfraquece, a esperança desfalece, a caridade resfria, e faltando cada vez mais os alimentos, termina por morrer. Oh! Desgraçada da alma que chega a uma culpa mortal depois de ter atravessado uma multidão de pecados veniais. A infeliz não conhece o que há de mais horrível no seu estado, não se assusta mais dele. A consciência adormecida por um longo hábito nunca mais reclama com força, não trata de sair desse estado pela penitência; e a alma perde-se facilmente.

Afetos. À luz dessas verdades reconheço, ó Minha Mãe, a cegueira daqueles que não ligam importância nenhuma às culpas veniais e sobretudo reconheço qual tem sido no passado a minha cegueira de ter tido tão pouco cuidado em preservar-me dessas culpas. Olhava o pecado venial como um ligeiro mal, por que não refletia na injustiça que ele faz a Deus e as funestas conseqüências que arrasta consigo. Como se pudesse bastar a alma cristã evitar as culpas graves, cometia as culpas ligeiras sem remorsos.     Agora compreendo todo o mal cometido em qualquer ofensa que seja à majestade infinita de Deus que me criou, me conserva e governa, que me remiu e não cessa um momento de me cumular de favores e graças, apesar da minha indignidade.
Compreendo que a gente se expõe ao perigo de se perder eternamente, não fazendo caso algum das culpas veniais, por causa das funestas conseqüências que as seguem.
Ó meu adorado Jesus, soberanamente amante! Vil criatura que eu sou, não cessarei nunca de Vos ofender? Ah! Eu reconheço qual tem sido a minha vida passada, por Vos ter tão pouco amado e estimado. Eu Vos peço humildemente perdão. Para reparar o mal que tenho cometido e evitá-lo de futuro, prometo-Vos que quero ser de hoje em diante tão atenta a fugir às culpas veniais, como mesmo ao pecado mortal. Serei fiel, Senhor, a promessa que faço. Concedei-me essa graça, pelos merecimentos de Maria, Vossa Mãe Santíssima e minha. E Vós, Virgem puríssima, castíssima e inocentíssima, não cesseis de orar por mim a fim de que possa obtê-la.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012


                                 
Masturbação
via redes sociais



Anos 90. Era muito comum nas propagandas de televisão sobre rodas de amizade por telefone 0900 em que consistia que os interlocutores se masturbassem motivados pela voz do outro lado da linha telefônica. Com o avanço tecnológico dos meios de comunicações, principalmente com a internet, o jogo sujo do demônio para perder as almas também se fez presente de um modo muito forte nesses meios.

Sobre a masturbação em si, ela é uma das práticas mais nocivas à alma. Torna o praticante egoísta, incapaz de amar, covarde, fraco, tira as suas esperança, aumenta a concupiscência em todos os pecados carnais, atrapalha orelacionamento humano. 

A matéria é grave e o caráter ilícito é intrínseco. Tendo conhecimento disso, a masturbação será pecado mortal sempre que houver o pleno consentimento. Não há relativização.

Questões hormonais não justificam a masturbação, tampouco, por si, lhe atenua a gravidade a ponto de torná-la venial, especialmente se a prática já se tornou um vício. Assim como a adrenalina não serve de justificativa ao homicídio. Os sentidos devem estar sempre sob o domínio da razão. Não é lícito fazê-la sucumbir.



O Catecismo evidencia que há atenuantes que devem ser levados em conta para eximir a culpabilidade moral do pecado.

Esses atenuantes não podem ser encarados como um conformismo, uma desculpa para atenuarmos a nós mesmos de nossos pecados. Não é válido para mim, por exemplo, me refugiar no pretexto de que "ah, o Catecismo diz que os hábitos contraídos atenuam, eu já estou acostumado, então mais uma vez não tem problema". Deve-se ler os atenuantes sempre na ótica de quem realmente sofre com esse mal, mas não usa suas fraquezas de forma desonesta com a própria consciência.

Vou arriscar analisar um por um os atenuantes que o Catecismo indica.


Imaturidade afetiva: uma pessoa na adolescência que está entrando na puberdade e ainda não compreende o que significa a liberação da libido, evidentemente não poderá ser culpado por cometer pela primeira vez algo que nem sabe ao certo como se dá. Não se trata apenas de mera ignorância, mas de imaturidade para julgar em que consiste a gravidade de algo que ainda não aprendeu a lidar.

Força de hábitos contraídos: Aqui entra a questão do vício. Sabe-se que qualquer vício age como um atenuante para o pecado. Ele pode ou não atenuar uma culpa moral se for realmente forte. Sabe-se que há pessoas ninfomaníacas, que adquirem um vício ao apetite sexual muito maior do que o seu controle natural de disciplina, e em tais casos o vício pode atenuar a culpa a ponto de torná-la venial.


Estado de angústia: Foi o que eu disse acima. Se há uma busca sincera pela castidade mas a pessoa é levada a circunstâncias extremas, as quais não buscou, e é confrontada com uma tentação que está largamente acima das suas forças de combate espiritual, o pecado pode ser relevado. Evidentemente pressupõe-se uma luta para evitar a consumação do ato aqui.


Outros fatores psíquicos ou sociais: poderíamos citar alguma patologia, tais como autismo, que não colocam a pessoa em situação de juízo moral adequado para certos atos, ou uma formação inadequada do juízo por parte da família e da escola, como a maldita "educação sexual" que está aí em quase todas as salas de aula desde a 5ª série. Também pode-se citar a condição social que uma pessoa se encontra em geral, de modo que ela mesma não saiba distinguir o grau de "pecado" que comete devido a uma vida totalmente desregrada, e que já inculcou este ato como algo absolutamente normal.

Há que se levar em conta aqui que o "pleno conhecimento" não se restringe ao comunicado formal. Pessoas adquiriram conhecimento sim, mas talvez não pleno. Para isso é pressuposto que esse conhecimento seja aceito pelo juízo moral, que faça sentido, que pareça sensato, e nem sempre isso é evidente na vida de uma pessoa.

Uma coisa é a gravidade objetiva do pecado, outra é a postura que se deve ter para com ele. Uma coisa é avaliarmos a questão abstratamente, outra bem diferente é achar que podemos julgar a gravidade de nosso próprio pecado nos casos particulares, o que evidentemente é falso.


Pecado de masturbação sempre exige confissão e, via de regra, deve sempre ser tido por falta grave, a não ser que a pessoa realmente não conhecesse a posição da Igreja. Não podemos procurar escusas em nós mesmos para atenuar nossa própria consciência. Como batemos no peito ao proclamar o confietor: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa, tomamos por nossa responsabilidade o consentimento último de nos entregarmos ao pecado, mesmo sabendo que pode ter havido vários atenuantes.  Embora a culpa seja minorada, não devemos levantar isso ao confessarmos o pecado.


Mas isso não significa que a culpa é objetivamente irrelevante. Ela pode sim ser atenuada. A culpa é um estado objetivo da alma no momento em que se cometeu o pecado. Não depende do confessor definir a culpa, ele pode mo máximo tentar identificá-la. O confessor tem juízo sobre a pena, não a culpa propriamente dita.


Aliás, tratar o nosso próprio pecado com a máxima severidade e procurar compreender o pecado do próximo com brandura e temperança é quase que uma obrigação do bom confessor. O Sacramento da Penitência restaura o estado de graça, suprindo esse estado de separação. Para que não reste ambiguidade, a confissão não apaga as penas temporais devidas por pecados, mas a culpa. 


A Confissão, por si, não apaga penas temporais. Ela apaga a culpa. Por isso, em geral, após a absolvição, os sacerdotes estipulam penitências. 


Quanto à contrição perfeita, trata-se da ação sublime pela qual, por amor - não por temor - odeia-se o pecado; pelo fato em si de ter ofendido a Deus, sumamente bom. Ela perdoa a culpa, não penas temporais, inclusive dos pecados mortais, mas é acompanhada do propósito de se confessar o quanto antes, onde todos esses pecados devem ser explicitados. 


Para manter a castidade e uma boa saúde da alma: oração e jejum! E sobre as redes sociais, nós, como católicos, devemos consagrar nosso computador e nossas páginas ao Imaculado Coração de Maria para que não sejamos atingidos pelas setas de Satanás.

A castidade tem por fim reprimir tudo quanto há de desordenado nos prazeres voluptuosos. Ora, estes prazeres não têm senão um único fim: perpetuar a raça humana, transmitindo a vida pelo uso legítimo do matrimônio. Fora dele, toda a luxúria é estritamente proibida.


A castidade chama-se com razão virtude Angélica, porque nos aproxima dos anjos, que são puros por natureza. É uma virtude austera, porque ninguém chega a praticá-la, sem disciplinar e domar o próprio corpo e sentidos por meio da mortificação. É uma virtude delicada, que as mais pequenas faltas voluntárias embaciam; e por isso mesmo dificil, porque não pode guardá-la senão quem luta generosa e constantemente contra a mais tirânica das paixões.


Tem muitos graus: o primeiro consiste em evitar com cuidado consentir em qualquer pensamento, imaginação, sensação, ou ação contrária a esta virtude. O segundo tende a afastar imediata e energicamente qualquer pensamento, imagem ou impressão que porventura pudesse deslustrar o brilho desta virtude. (...) (A. Tanquerey, Teologia Ascética e Mística, nº 1100-1101)



PARA CITAR ESTE ARTIGO:


Masturbação via redes sociais David A. Conceição 11/2012 Tradição em Foco com Roma.

                Desespero dos réprobos no inferno.

Mortuo homine ímpio, nulla erit ultra spes – “Morto o homem ímpio, não restará mais esperança alguma” (Prov. 11, 7).
Sumário. Enquanto o pecador vive, há sempre esperança de conversão; mas quando a morte o arrebatou no estado de pecado, não lhe resta mais esperança alguma e verá sempre diante dos olhos a sentença de sua eterna condenação. Sim, porque o inferno tem uma porta de entrada, mas não de saída. O que o réprobo começa a sofrer no primeiro dia da sua entrada, terá de sofrê-lo sempre. Qual não seria, pois, o nosso desespero, se por desgraça nos viessemos a condenar!... Ó Pai Eterno, pelo amor de Jesus Cristo, castigai-me como quiserdes, mas poupai-me na eternidade.
I. Quem entra uma vez no inferno, nunca mais dele sairá. Este pensamento fazia Davi exclamar tremendo: “Ó Senhor, não me afogue a tempestade, nem me absorva o mar profundo, nem cerre o poço a sua boca sobre mim.”(1) Mal cai um réprobo neste poço de tormentos, logo se fecha a entrada e não se abre mais. O inferno tem uma porta de entrada, mas não de saída, diz Eusébio Emisseno: Descensus erit, ascensus non erit. Eis como ele explica as palavras do salmista: Não cerre o poço a sua boca sobre mim: Enquanto vivo, pode o pecador ter esperança de conversão, mas se a morte o surpreender no estado de pecado, perdê-la-á para sempre: Morto o homem ímpio, não restará mais esperança alguma.
Se os condenados pudessem ao menos embalar-se em alguma falsa esperança e assim achar algum alívio na sua desesperação! O homem enfermo mortalmente e estendido no leito, apesar de desenganado pelos médicos, ainda busca iludir-se e consolar-se dizendo: “Quem sabe se ainda não se encontra um médico ou um remédio que me possa curar?” Um criminoso condenado às galés perpétuas acha também uma consolação neste pensamento: “Quem sabe se algum acontecimento não me tirará destas cadeias?” Se o réprobo pudesse ao menos dizer igualmente: “Quem sabe se um dia não sairei desta prisão?” e assim iludir-se com alguma falsa esperança. Mas não: no inferno não há esperança, nem verdadeira nem falsa; não há o quem sabe.
Satatuam contra faciem (2) – “Eu t´o porei diante de tua face”. O desgraçado réprobo terá incessantemente diante da vista a sentença que o condena a gemer eternamente nesse abismo de sofrimentos. O condenado não sofre somente a pena de cada instante, mas sofre a cada instante a pena da eternidade, vendo-se obrigado a dizer: O que sofro atualmente, sofrê-lo-ei sempre. Pondus aeternitatis sustinent, diz Tertuliano: os réprobos gemem sob o peso da eternidade.
II. Dirijamos ao Senhor a súplica que lhe fazia Santo Agostinho: “Meu Deus, queimai e cortai aqui, não me poupeis, a fim de que possais perdoar-me na eternidade.” As penas da vida presente são passageiras: Sagittae tuae transeunte; mas os castigos da outra vida nunca têm fim. Temamo-los, pois, temamos esse trovão: Vox tonitrui tui in rota (3); esse trovão da condenação eterna, que, no dia do juízo, sairá contra os réprobos da boca do divino Juiz: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno (4). Diz-se: in rota; porque a roda é a imagem da eternidade, que não tem fim. Será grande o suplício do inferno, mas o que mais nos deve assustar é ser o castigo irrevogável.
Ó meu Redentor, se eu atualmente estivesse condenado, como mereci tantas vezes, não haveria para mim esperança de perdão. Ah, Senhor, agradeço-Vos o tempo e as luzes que ainda me concedeis e prometo mudar de vida. Como? Esperarei porventura que me mandeis ao inferno? Eis-me aqui prostrado aos vossos pés; recebei-me na vossa graça. Outrora fugia de Vós; mas agora estimo a vossa amizade mais do que a posse de todos os reinos da terra. Não quero mais resistir aos vossos convites. Vós me quereis todo para Vós; todo inteiro me consagro a Vós. Sobre a cruz Vos destes todo a mim, eu me dou todo a Vós.
Prometestes: Si quid petieritis me in nomine meo, hoc faciam (5) – “Se me pedirdes alguma coisa no meu nome, fá-lo-ei”. Ó meu Jesus, confiado na vossa bela promessa, no vosso nome e pelos vossos merecimentos peço-Vos a vossa graça e o vosso amor. Fazei que na minha alma reine a vossa graça e o vosso santo amor, assim como nela reinou o pecado. Graças Vos dou por me terdes animado a fazer-Vos este pedido; pois isto me afiança que serei atendido. Atendei-me, ó meu Jesus, e dai-me um grande amor para convosco, dai-me um grande desejo de Vos agradar e a força para o executar. – Ó minha poderosa Advogada, Maria, atendei-me também vós, e rogai a Jesus por mim. (*II 124.)
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1. Ps. 68, 16.
2. Ps. 49, 21.
3. Ps. 76, 19.
4. Matth. 25, 41.
5. Io. 14, 14.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 287- 290.)

terça-feira, 27 de novembro de 2012


                                                                     

DAS SECURAS ESPIRITUAIS: Sumário. O Senhor prova os que o amam com securas e tentações. Quando, pois, te achares em tal provação, não percas a coragem, mas entrega-te com abandono inteiro à misericórdia divina. Faze continuamente atos de humildade e resignação, confessando que mereces ser tratado assim e ainda pior. Não omitas sobretudo nenhuma das tuas boas obras e orações, muito embora as faças sem gosto e contra vontade. Virá o tempo em que serás bem pago por tudo.Posuit me desolatam, toto die moerore confectam – “Pos-me em desolação, afogada em tristeza todo o dia” (Thren. 1, 13).
I. Diz São Francisco de Sales que a verdadeira devoção e o verdadeiro amor de Deus não consistem em sentir consolações espirituais nos exercícios de piedade, mas em ter uma vontade resoluta de só querer e fazer aquilo que Deus quer. É só para este fim que devemos orar, comungar, praticar a mortificação e qualquer outra virtude que agrada a Deus, muito embora façamos isso sem satisfação alguma e no meio de mil tentações e aborrecimentos de espírito. “Pelas securas e tentações”, diz Santa Teresa, “o Senhor experimenta os que o amam. Posto que a secura continue durante toda a vida, não deixe a alma de fazer oração; virá tempo em que será bem paga por tudo.”
Segundo o aviso dos mestres da vida espiritual, devemos, no tempo da desolação, exercitar-nos principalmente em fazer atos de humildade e de resignação. Não há tempo mais próprio para conhecermos a nossa fraqueza e miséria como quando na oração estamos áridos, aborrecidos, distraídos e desgostosos, sem fervor sensível, mesmo sem desejo sensível de progredirmos no amor divino. – Então a alma diz: Senhor, tende compaixão de mim! Vede como sou incapaz de fazer qualquer ato de virtude. Ela deve também praticar a resignação e dizer: Meu Deus, deixai-me ficar nesta escuridão e aflição; seja sempre feita a vossa vontade! Não desejo consolações; basta-me estar aqui para Vos agradar. E assim deve ela perseverar na oração todo o tempo determinado.
A maior pena, porém, das almas amantes da oração, não é tanto a secura, como a escuridão, na qual a alma se vê privada de toda a boa vontade, e tentada contra a fé e contra a esperança. Eis porque nesse tempo a solidão lhe é um horror, e a oração lhe parece um inferno. Então ela deve criar coragem e lembrar-se que esses temores de ter consentido na tentação ou na desconfiança, não são senão temores vãos e tormentos da alma, mas não atos da vontade e por isso são isentos de pecado.
II. No tempo da desolação e escuridão não quer a alma assegurar-se de que está na graça de Deus e isenta de pecado. Tu então queres saber e estar certo de que Deus te ama; mas Deus nesse tempo não t´o quer fazer conhecer. Quer que te apliques à humildade, à confiança na sua bondade, e à resignação à sua vontade. Tu então queres ver, e Deus não quer que vejas. – A este respeito diz São Francisco de Sales que a resolução que tens (ao menos com a ponta da vontade) de amar a Deus e de lhe não dar deliberadamente o menor desgosto, te afiança que estás na graça de Deus. Nesse tempo, abandona-te todo nos braços da misericórdia divina, protesta que não queres outra coisa senão Deus e sua santa vontade, e não temas. Oh, quanto agradam a Deus os atos de confiança e de resignação feitos no meio dessas trevas pavorosas!
Santa Joanna de Chantal sofreu por espaço de 41 anos penas interiores, acompanhadas de tentações horrorosas e do temor de estar em pecado e abandonada de Deus. Pelo que dela dizia São Francisco de Sales, que a sua bendita alma era como um músico surdo, que canta bem, mas não pode gozar da voz, porque a não ouve. – A alma que é provada pelas securas, por mais densas que sejam no sangue de Jesus Cristo, resigne-se à vontade divina e diga:
Ó Jesus, minha esperança e único amor da minha alma, eu não mereço as vossas consolações. Guarde-as para aqueles que Vos têm amado sempre; eu só mereci o inferno, abandonado para sempre de Vos e sem esperança de Vos poder ainda amar. Privai-me de todas as coisas, mas não de Vós. Amo-Vos, miserável como sou. Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas; consagro-me todo a Vós e não quero mais viver para mim mesmo. Dai-me força para Vos ser fiel. – Ó Virgem Santíssima, esperança dos pecadores, tenho confiança na vossa intercessão; fazei que eu ame a meu Deus, meu Criador e Redentor. (II 306.)

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 285- 287.)


                                    FLORES DA EUCARISTIA

A maior graça que Deus concede a um povo é o sacerdote, o sacerdote segundo o seu Coração.
Pedi Sacerdotes, bons sacerdotes. Toda família que conta entre seus membros um Sacerdote será eternamente enobrecida. Nosso Senhor a abençoa e protege com amor privilegiado.
As famílias de outrora, convencida desta verdade, queriam dar à Igreja o cavalheiro de Deus, como davam à pátria soldados, cavalheiros e reis.
Uma família que deu à Igreja um de seus filhos queridos terá como recompensa nesta terra saber que, diariamente, o céu há de se abrir á voz desse filho de predileção, a fim de derramar sobre ela graças escolhidas.
No dia de sua primeira Missa, o Sacerdote envia ao céu, pela primeira vez, a Vítima de graça e de salvação, que, em seu nome, também pela primeira vez bate no Coração do Pai Celestial.
Jesus, nosso divino Medianeiro, entra assim no céu por um novo caminho, por uma nova porta que se abre nesse dia e que somente se fechará com a morte do Sacramento que a abriu!





Deus Imenso

Deus não está compreendido no tempo: é eterno. Com razão se diz que Deus é eterno, pois carece de princípio e de fim, e também porque seu ser não se varia no passado ou no futuro. Nada se lhe subtrai, nada lhe pode advir de novo. Por isso disse a Moisés (Ex 3,14) : Sou aquele que sou, pois o ser dele não conhece nem passado nem futuro, mas encontra-se no presente.
A magnitude de Deus excede incomparavelmente a magnitude de todas as criaturas, pois é imenso. Toda coisa pode ser medida por outra, a qual, se excede em magnitude, o faz segundo alguma proporção, conforme o binário mede o senário, que é o triplo dele. Ora, Deus, pela magnitude de sua dignidade, excede toda criatura infinitamente. Por isso é dito imenso, pois não há medida comum ou proporção de nenhuma criatura com Ele. Por isso diz o salmista: Grande é o Senhor, muito digno de louvor, e a sua grandeza é insondável (Sl 144,3). E mais: É vasto, não tem limites, é elevado e imenso (Br 3,25). Deus está acima de tudo - é imutável, uma vez que nele não há variação, conforme diz as Escrituras : no qual não há mudança nem sombra de vicissitude (Tg 1,17). A tudo transcende pelo seu poder: é onipotente, uma vez que simplesmente pode tudo. Por isso disse (Gen 17,1): Eu o Deus onipotente.
Ultrapassa a razão e o intelecto de todos, pois é incompreensível. Dizemos compreender algo quando conhecemos perfeitamente quanto lhe é conhecível. Ora, nenhuma criatura pode conhecer Deus tanto quanto possível, e por isso nenhuma criatura o pode compreender. Donde a Escritura (Jó 11,7): Porventura alcançarás os caminhos de Deus, e conhecerás perfeitamente o Onipotente? - E pergunta como quem nega. Noutro lugar (Jr 32,18): Ó Deus grande e poderoso, Senhor dos exércitos é teu nome.
Grande em teus conselhos e incompreensível em teus pensamentos. Enfim, Deus desafia toda palavra: é inefável, pois ninguém pode dizer-lhe um louvor suficiente. Por isso, está escrito (Ecle 43,33): Exaltai-o quanto puderdes, porque ele está acima de todo louvor.
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Postado por Danilo Badaró