domingo, 30 de março de 2014

O Cego de nascença - IV



  Dom Henrique Soares Costa

Visão Cristã
domingo, 30 de março de 2014
IV Domingo da Quaresma: Na piscina do Enviado, a Luz

1Sm 16,1b.6-7.10-13a
Sl 22
Ef 5,8-14
Jo 9,1-41



Caríssimos no Senhor, o Evangelho de hoje é mais uma belíssima catequese batismal que nos prepara para a santa Páscoa. Não esqueçamos, Irmãos, que em muitas paróquias adultos estão terminando seus preparativos para o Batismo. No Domingo passado, no Evangelho da Samaritana, vimos que Jesus é o Messias, poço que dá a verdadeira água do Espírito Santo, água que é recebida no Batismo e jorra para a Vida eterna.



Neste hoje, “ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença”. Esse homem simboliza os judeus e a humanidade toda, enquanto não encontra Jesus e Nele crê. Agora vede, caríssimos: os discípulos, apegados a uma crença popular antiga, tão combatida por Jeremias e Ezequiel, pensavam que o cego estava pagando pelos pecados seus ou dos seus antepassados. Era uma crença errada, semelhante à superstição da reencarnação: “Quem pecou para que nascesse cego: ele ou seus pais?” O certo é que muitos judeus teimavam em afirmar que se alguém nascia sem saúde ou estava pagando os pecados dos antepassados ou tinha pecado ainda no ventre materno! É sempre a tentativa humana de tudo explicar e de compreender sobretudo o mistério tão penoso do mal, do sofrimento, da morte! Irmãos, não há resposta, não há explicação arrumadinha, matemática, como o resultado de uma equação! Os segredos da vida pertencem a Deus! Se crermos no Seu amor, se nos abandonarmos nas Suas mãos, a maior dor, o mais inexplicável sofrimento pode ser confortado pela certeza de que Deus está conosco e nos fortalece: “Nem ele nem seus pais pecaram: isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele!” Até na dor e no sofrimento Deus está presente quando somos abertos à Sua Presença. Pena que nosso mundo superficial e incrédulo não compreenda isso... Se se abrisse para Jesus, o Inocente crucificado e morto, compreenderia com o coração que mesmo os sofrimentos e escuridões da vida têm um misterioso sentido à luz do amor de Deus... Na Sua luz, contemplamos a luz da vida: “Enquanto estou no mundo, Eu sou a luz do mundo!” Mas, o nosso mundo se fecha na sua racionalidade cega e orgulhosa, na sua lógica estreita, na sua concepção mesquinha de una justiça estrita e fria... É o caso da lei do retorno (fez, tem que pagar), tão cara aos reencarnacionistas e tão distante das Escrituras, que proclamam um Deus misericordioso e compassivo... Quanto a nós, caríssimos, adoremos o Senhor, mesmo nas escuridões da vida, e digamos a belíssima bênção judaica: Bendito sejas Tu, Senhor nosso Deus, que guardas os segredos!” Isto mesmo, meus caros em Cristo! Quando confiamos no Senhor mesmo diante do mal e da dor, compreendemos e experimentamos que “tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8,28).



Continuemos, caríssimos, acompanhando a narrativa: Jesus, cospe no chão e faz lama. A saliva, para os judeus, continha o espírito; simboliza, então, como a água, o dom do Espírito. Recordai o Gênesis, quando o Senhor Deus plasmou o homem do barro e lhe soprou nas narinas e o homem tornou-se vivente... Agora o nosso Jesus, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, toma o barro e nele coloca seu sopro feito líquido, isto é, sua saliva: Ele vai recriar aquele cego: “Todo aquele que está em Cristo é uma nova criatura” (2Cor 5,17). Depois, Jesus ordena: “Vai lavar-te na piscina de Siloé!” E o Evangelista recorda: Siloé quer dizer “Enviado”... Qual é a piscina do Enviado, a piscina do Cristo Jesus? É a piscina do Messias, pia do nosso Batismo, na qual fomos iluminados pelo Senhor que é luz do mundo! Éramos todos cegos; o homem sem cristo vê do seu próprio modo, vê na sua cegueira... Em outras palavras: não vê! Mas, o cego obedece, caríssimos: vai, lava-se e retorna vendo! Eis o que é o cristão, o discípulo de Cristo: aquele que era cego, foi lavado na piscina batismal e voltou vendo! Vendo de um modo novo, vendo-se a si mesmo e vendo tudo à luz de Cristo! Mas, que coisa: porque ele vê, os judeus o expulsam da sinagoga, como o mundo também nos expulsa de sua amizade a apreço! Não somos do mundo, como o Senhor nosso não é do mundo; Ele nos separou do mundo! Agora, curado da cegueira, aquele que foi iluminado pode ver Jesus; ver com a fé, ver a realidade mais profunda, ver que Ele é o Senhor, Filho de Deus:“’Acreditas no filho do Homem?’ ‘Quem é, Senhor para que eu creia nele?’ Jesus disse: ‘Tu O estás vendo; é Aquele que está falando contigo!’” Para isso Te curei, para isso fiz-te enxergar! “‘Eu creio, Senhor!’ E prostrou-se diante de Jesus!”



Irmãos caríssimos, também nós fomos iluminados pelo Cristo no Batismo. Para nós valem as palavras de São Paulo: “Outrora éreis treva, mas agora sois luz no Senhor! Vivei como filhos da luz! Não vos associeis às obras das trevas!” Eis, caros irmãos: iluminados por Cristo não podemos pensar como o mundo, sentir como o mundo, agir como o mundo ver como o mundo! Devemos viver na luz, tudo enxergar na luz de Cristo, na luz Daquele que, no dizer da primeira leitura de hoje, não vê como o homem vê: “Não julgo segundo os critérios do homem: o homem vê as aparências, mas o senhor olha o coração!” Eis: ver como Deus vê – isto só é possível se Ele mesmo, nossa Luz, nos iluminar; aí, então, seremos luz para o mundo! Mas, não é fácil; não basta querer! Sem a graça do Senhor, nada conseguiremos, a não ser sermos infiéis! Por isso a necessidade dos exercícios quaresmais; por isso a oração, a penitência e a caridade fraterna, por isso a necessidade da confissão de nossos pecados! Não nos esqueçamos: não poderemos zombar de Cristo: seremos julgados na Sua luz: “Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não veem vejam e os que veem se tornem cegos!” – Eu vim para revelar a luz aos humildes, aos que se abrem à minha Palavra e à minha Presença, e vim revelar a cegueira do mundo confiado na sua própria razão, na prepotência de seus próprios caminhos! Porque este mundo diz que vê, que sabe, que está certo, seu pecado permanece! Somente se abrir-se para a luz do Cristo, caminhará na luz e enxergará de verdade! Mas, para isto é preciso converter-se... O mundo e nós... Nós também, Irmãos, somos sempre necessitados de conversão!



E então: caminhamos na luz ou permanecemos nas trevas? As Festas Pascais estão próximas, às portas. A cor rosa deste Domingo - o roxo quaresmal misturado já com o branco pascal - no-lo recorda! Deixemo-nos iluminar! Que o Senhor, pela Sua misericórdia infinita, ilumine a nossa vida e dissipe as nossas trevas! Amém!




O Cego de nascença



Retiro Quaresmal - Na Piscina do Enviado, a Luz! (1)

XXVI dia da Quaresma - XXII dia de penitência ( Jo 9,1-41) - 
O Cego de  nascença    Part. I
Meu caro Leitor, depois de ter meditado o belíssimo evangelho da Samaritana, desejo agora meditar com você o profundo texto quaresmal do cego de nascença. Lembre-se: estes são textos que a Igreja usou no tempo da Quaresma desde a antiguidade para preparar os catecúmenos para o Batismo. Nosso texto é Jo 9,1-41. É bom ter em mente que este texto será completado no IV Domingo da Páscoa, com o Evangelho do Bom Pastor, que é a sequência do debate de Jesus com os fariseus, após a cura do cego neste IV Domingo da Quaresma!
1Ao passar, Jesus viu um homem, cego de nascença. 2Seus discípulos Lhe perguntaram: “Rabi, quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?” 3Jesus respondeu: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas é para que nele sejam manifestadas as obras de Deus”.
Comentando:
Jesus encontra-se em Jerusalém para a Festa das Tendas. Desde o capítulo VII João conta os embates do nosso Senhor com os judeus durante esta Festa. Foi durante esta ocasião que o Salvador revelou-Se de modo patente como o Enviado do Pai e os judeus optaram decididamente por rejeitá-Lo e não reconhecer Nele o Messias prometido por Deus e esperado por Israel. Não haverá nunca como negar esta dramática realidade: Jesus fora enviado primeiramente a Israel e Israel – o de ontem e o de hoje – O rejeitou: “Veio para o que era Seu e os seus não O receberam” (Jo 1,11). Mas, atenção: também nós, cristãos, corremos sempre o risco de rejeitá-Lo na prática. Aliás, o Ocidente, que já fora cristão, não O rejeitou nos dias de hoje? Não está se tornando cada vez mais pagã, ateia mesmo, a nossa cultura, as nossas leis, o nosso Brasil?
Brasil, Brasil, olha para o teu Governo, para os representantes que teu povo escolheu: promovem leis iníquas, que destroem tudo quanto é realmente humano, digno, decente, cristão... Gente eleita pela tua gente... Lembras-te ainda, Brasil, de que um dia foste cristão, de que um dia nasceste como Terra de Santa Cruz? Recordas-te, Brasil, de que um dia foste batizado?
Jesus passou e viu um cego de nascença... Desde já é importante compreender que este cego é todo aquele que ainda não crê em Jesus, que ainda não viu Nele o Filho de Deus. Jesus passa e vê a humanidade imersa na cegueira do pecado; Jesus passa e nos vê: vê a mim, vê a você... Vê-nos cegos pela cegueira do pecado... Nascidos todos no pecado, somos todos cegos e mendigos até que não sejamos curados pela luz Daquele que é a Luz do mundo! Não esqueçamos: ninguém nasce filho de Deus; nascemos todos filhos da ira (cf. Rm 1,18); concebidos todos como pecadores (cf. Sl 51/50,7), porque “todos pecaram e todos estão privados [da luz] da Glória de Deus - e são justificados gratuitamente, por Sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus!” (Rm 3,23s)
Atenção ainda: para João, crer é ver Jesus, vê-Lo com fé, contemplá-Lo, enxergar Nele o Filho. O Enviado do Pai! Isto é importantíssimo, é fundamental nas Escrituras santas:o Deus que no Antigo Testamento podia apenas ser ouvido (e por isso não se podia fazer imagem alguma Dele), agora, em Jesus, “Imagem do Deus invisível” (Cl 1,15), pode ser visto, tocado, ouvido, apalpado (cf. 1Jo 1,1ss). Do Antigo para o Novo Testamento a ênfase passa do “ouvir” para o “ver” porque o Verbo-Palavra invisível Se fez carne visível e nós vimos a Sua glória (cf. Jo 1,14).
Os discípulos veem o cego e interpretam sua triste situação de cego mendigo com as explicações falsas da época. Pensam, como os reencarnacionistas e os adeptos de outras doutrinas igualmente pagãs, que ele está cego para pagar por seus pecados ou, segundo uma antiga crença do povo [que os profetas Jeremias e Ezequiel condenaram e o povo teimava em continuar crendo], que o cego está pagando pelos pecados de seus antepassados.
Atenção: os judeus não pensavam que o cego estaria pagando por pecados de uma vida passada, mas por pecados que poderia ter cometido no ventre materno! Efetivamente, vários rabinos ensinavam que já no ventre se poderia pecar... Por isso os apóstolos pensam que talvez por um pecado assim aquele lá havia nascido sem enxergar. Quanto à crença de que os filhos pagariam pelos pecados dos pais, veja o que dizem contra ela os profetas Jeremias (cf. 31,29-30) e Ezequiel (cf. 18,1-32). E, no entanto, o povo e os apóstolos continuavam com essas crenças! Jesus os corrige, deixando claro que não existe uma relação assim automática de causa e efeito para o sofrimento e a dor humanas...
A existência é um mistério: não compreendemos tudo, não sabemos tudo! Pelo contrário: quase nada é o que compreendemos da vida com suas vicissitudes e misteriosos acontecimentos, por vezes tão escandalosamente dolorosos. Mas, Jesus nos previne para um fato muito importante: de tudo pode-se tirar um bem e mesmo nas situações mais obscuras e tristes a glória de Deus pode se manifestar. É o que acontecerá com este cego e o que ocorrerá na casa de Marta, Maria e Lázaro defunto (cf. Jo 11,4).
Nunca se esqueça, meu Leitor: as coisas reveladas pertencem aos homens, aquelas obscuras pertencem ao Senhor! Haverá sempre tanto da realidade nossa e do mundo que nunca compreenderemos! É na fé, com os olhos no amor de Deus que se manifestou de modo pleno e absoluto na dor trágica da Cruz e na gloriosa Ressurreição do Senhor, que podemos compreender sem entender bem como, que Deus está sempre silenciosamente presente na nossa vida, com Seu amor misericordioso. Assim é na alegria, assim na tristeza; assim na brisa suave e na tremenda força de um tsunami; assim num melancólico por de sol ou num tremendo terremoto. É sempre Ele, que misteriosamente nos visita e nos revela o quanto somos pequenos, o quanto nossos pensamentos são incertos e nossa lógica, capenga... Mas sempre Seu amor e Sua glória resplandecerão e poderão ser vistos por aqueles que creem e o não tentam. “Bendito sejas Tu, Adonai nosso Deus, que guardas os segredos!”
- Senhor Jesus, piedade que somos todos cegos!
Dá-nos tua luz, ó Tu que és a Luz!
Senhor Jesus, piedade que vivemos nas tremendas incertezas da vida!
Dá-nos confiar sempre em Ti, que nos amas e nos vês sempre!
Senhor Jesus, piedade quando as escuridões da vida abalam a nossa fé tão débil!
Dá-nos força para Ti bendizer, pois sabes tudo e em tudo nos amas!
Senhor Jesus, piedade de nós na hora da dor e da ameaça dos absurdos!
Dá-nos dizer: “Bendito sejas Tu, Senhor nosso Deus, que guardas os segredos!”
Senhor Jesus, eu creio! Mas aumenta a minha pouca fé!
Sustenta minha fé na noite da vida, ó Tu, Luz sem ocaso, Luz do mundo!
...

O Cego de nascença


Retiro Quaresmal - Nas Piscina do Enviado, a Luz (3) 
Evangelho Jo, 9-1-41 Domingo - 30-03-14  Part. II
6Tendo dito isso, cuspiu na terra, fez lama com a saliva, aplicou-a sobre os olhos do cego 7e lhe disse: “Vai lavar-te na piscina de Siloé – que quer dizer ‘Enviado’. O cego foi, lavou-se e voltou vendo”.
Não canso de admirar e saborear a beleza das narrativas de São João! De modo elegante, conciso, forte, ele diz tudo! Jesus é a Luz do mundo e vai dar luz a esse cego que, de nascença, nunca vira a luz. Para isto, cospe e faz lama com a saliva. O significado é profundo: para os judeus, a saliva é o nosso sopro feito líquido. Então, Jesus infunde o Seu sopro, isto é, o Seu Espírito no barro, como Deus, que no princípio, plasmou o homem da terra e soprou-lhe nas narinas um hálito de vida! Veja, meu Leitor, o que o Evangelista está procurando nos dizer: Jesus vai recriar, vai fazer desse homem uma nova criatura, um homem de verdade!
O Senhor aplica a saliva nos olhos cegos e ordena que o homem se lave na piscina do Enviado. Ora, o Enviado é Jesus e Sua piscina é aquela do santo Batismo, é a pia do seu e do meu Batismo! Nunca esqueça: nós todos nascemos cegos; nascemos no pecado (cf. Sl 51/50,7), nascemos não filhos de Deus, mas filhos da ira (cf. Rm 1,18)! O Senhor “viu” a nossa situação, “viu-nos”, como viu aquele cego! Eis o desejo do Senhor: que todos os cegos do mundo, todos nós, que nascemos cegos pelo pecado original, creiamos em Cristo e nos lavemos na Sua piscina: “Quem crer e for batizado será salvo!” (Mc 16,16). Ali sim, naquela santa Piscina, enxergaremos a verdade: que Jesus é o Senhor, o Messias de Deus, o nosso único Salvador! Façamos como o cego do Evangelho: “O cego foi, lavou-se e voltou vendo!”
Para que você saiba bem: na antiguidade cristã, o Batismo era chamado de Iluminação, em grego, photismós. Com efeito, assim como o recém-nascido segundo a carne vê a luz deste mundo, o renascido no Espírito de Cristo, presente na água da pia batismal, vê a luz de Cristo, é por Ele iluminado! Assim, um cristão, um iluminado por Cristo, não pode ver o mundo, ver as coisas como os pagãos veem: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da Luz!” (Ef 5,8) Que miséria constatar tantos discípulos de Cristo, iluminados “na piscina do Enviado”, continuam pensando, falando, agindo, vivendo segundo a treva do mundo!
Ainda mais um detalhe: recorda do Evangelho da Samaritana? Jesus não disse que daria uma Água que jorra para a Vida eterna? Olhe a Água aí novamente, agora na piscina do Enviado! Lá e cá, na Samaritana e em Siloé, a água tem o mesmo significado: é o Espírito que o Senhor morto e ressuscitado nos dará! “Em verdade, em verdade Eu vos digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus! O que nasce da carne é carne; o que nasceu do Espírito é espírito” (Jo 3,5-6), é homem "espirituado", é nova criatura, iluminado, nascido para a Vida eterna!
- Senhor Jesus, Luz do mundo,
Luz que não conhece ocaso,
Recria-me com a força do Teu Espírito!
Lembra-Te, ó Santíssimo Salvador,
Que eu fui lavado na Tua piscina,
Fui iuminado,
Fui purificado,
Fui regenerado – gerado de novo!
No entanto,
Por minha preguiça,
Por minha displicência,
Por minha soberba,
Muitas vezes sou cego,
Muitas vezes, sujo,
Muitas vezes morto no meu coração!
Piedade, ó Piedoso!
Misericórdia, ó Misericordioso!
Senhor, Amigos dos Homens!
Pelos santos exercícios quaresmais
Ilumina-me,
Purifica-me,
Renova-me,
Para que eu possa santamente celebrar o solenidade bendita da Tua Páscoa
E, na hora de minha morte, possa fazer minha Páscoa para a eternidade
Na tua luminosa Presença, quando serás minha lâmpada para sempre (cf. Ap 21,23). Amém.
...

quinta-feira, 27 de março de 2014




"Salve, ó santa Mãe de Deus!
Vós destes à luz o Rei
Que governa o céu e a terra
Pelos séculos eternos!" (Liturgia romana)

"Verdadeiramente é digno bendizer-te,
Ó Mãe de Deus!
Bem-aventurada, imaculada para sempre,
Mãe do nosso Deus!
Mais venerável que os querubins
E incomparavelmente mais gloriosa que os serafins!
Tu, que conservando tua integridade,
Deste à luz o Verbo de Deus!
Tu és na verdade Mãe de Deus!
Nós te glorificamos!" (Liturgia bizantina)



ÚLTIMA PARTE DA SAMARITANA
...
"39Muitos samaritanos daquela cidade tinham acreditado Nele por causa da palavra da mulher que afirmava: “Ele me disse tudo o que eu fiz”. 40Assim, quando chegaram junto Dele, os samaritanos Lhe pediram que ficasse entre eles. E Ele ficou lá dois dias. 41Bem mais numerosos ainda foram os que creram por causa da própria palavra de Jesus; 42e eles diziam à mulher: “Não é somente por causa dos teus dizeres que nós cremos; nós mesmos o ouvimos e sabemos que Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo”."

Comentando:

Aqui, as observações finais do Evangelista, cheias de significado:

Primeiro a Samaritana, que não consegue conter, guardar só para si o tesouro que encontrou, a alegria que experimentou: vai, exultante, partilhar com seus conterrâneos! Repito o que já afirmei anteriormente: quem encontra Jesus de verdade não consegue deixar de falar Dele: “Não podemos nós deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (At 4,20). Evangelizar não é anunciar ideias, não é fazer promoção social, não é fazer pesquisa sobre as condições de vida de uma comunidade, não é fazer educação política, social ou ecológica...
Evangelizar é anunciar o Jesus que se descobriu e experimentou como Senhor e Salvador, é comunicar uma alegria, uma certeza, um entusiasmo... É isto que comove, que contagia, que convence e transforma a vida das pessoas e do mundo! O resto - quando não é precedido deste essencial - é moralismo chato, enfadonho e insuportável... Disso temos experimentado muito na vida da Igreja nas últimas décadas! 
Por isso mesmo, ser cristão deixa de ser uma alegria para ser um peso chato e sufocante!

Segundo ponto: os que creram inicialmente na mulher não ficam numa fé superficial: pedem que Jesus fique com eles e procuram conhecê-Lo, conviver com Ele, escutá-lo!
Este processo de crescer no conhecimento amoroso de Cristo, numa intimidade saborosa e pessoal com Ele, nunca deve ter fim para o verdadeiro cristão, para o autêntico discípulo: quem conhece Jesus deseja sempre mais conhecê-Lo; quem O ama verdadeiramente desejará sempre amá-Lo mais, porque, como dizia Santa Teresa d’Ávila, “amor atrai amor”! Não basta o querigma, o primeiro anúncio; é necessária a catequese, o fazer sempre ecoar de novo, aprofundando, o primeiro anúncio recebido...
Por isso os samaritanos pedem que Jesus permaneça com eles e dizem, enfim, de modo comovente, à Samaritana: Já não cremos mais pelas tuas palavras, de modo indireto; nós mesmos vimos, ouvimos, tocamos, experimentamos que Este é o Salvador do mundo!

Nunca esqueça, viu meu Leitor querido: o cristianismo nasce e se alimenta constantemente de uma experiência viva, pessoal, sempre nova, sempre criativa e sempre apaixonante e transformadora com a bendita Pessoa de Jesus de Nazaré, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Filho eterno do Pai, Cristo de Deus, nosso Salvador amado!

Jesus meu, Jesus nosso,
Salvador bendito!
Obrigado pela Tua Palavra,
Obrigado pela Salvação,
Obrigado pela esperança plantada em nossos corações!

Olha benigno para os catecúmenos da Igreja,
aqueles que se preparam para o Batismo no Espírito,
na próxima Páscoa!
Que bebendo da Água viva que Tu somente nos dás,
possam viver já agora na Vida eterna,
possam fazer jorrar para outros esta bendita Água de Vida
e possam um dia, no Teu Dia, viver essa Vida para sempre!

Jesus, dá-nos a nós também, já batizados,
o que para eles, os catecúmenos, estamos suplicando!
A Ti a glória, ó Bendito,
hoje, na Igreja,
e pelos séculos dos séculos. Amém


                   A Samaritana -  p. V
...

"31Enquanto isso, os discípulos insistiam com Ele: “Rabi, come!” 32Mas Ele lhes disse: “Eu tenho para comer um alimento que vós não conheceis”. 33Nisso os discípulos disseram entre si: “Alguém Lhe teria dado de comer?” 34Jesus lhes disse: “ O Meu alimento é fazer a vontade Daquele que Me enviou e realizar a Sua obra. 35Vós mesmos não dizeis: 'Daqui a quatro meses, virá a messe'? Ora, Eu vos digo: levantai os olhos e olhai; já os campos estão brancos para a messe! 36Já o ceifeiro recebe o seu salário e ajunta fruto para a vida eterna, de tal modo que aquele que semeia e aquele que colhe se alegram juntos. 37Pois nisto é verdadeiro o provérbio: 'Um é o que semeia, outro, o que colhe’. 38Eu vos enviei para colher o que não vos custou nenhum trabalho; outros trabalharam e vós entrastes no que lhes custou tanto trabalho”.

Comentando:

João é um narrador admirável!
Note como é capaz de apresentar duas cenas paralelas de modo envolvente: na cidade, a Samaritana evangeliza seus conterrâneos; no poço, Jesus instrui os apóstolos. O diálogo de Jesus é todo metafórico, como o foi também com a mulher samaritana.

Os discípulos desejam que Jesus coma o que eles compraram, mas o Senhor já está mais que saciado com aquilo que o Pai acabara de Lhe dar: “Meu alimento é fazer a vontade do Pai e realizar a Sua obra”. Qual é a vontade do Pai? “A vontade Daquele que Me enviou é esta: que Eu não perca nada do que Ele Me deu, mas o ressuscite no último dia. Sim, esta é a vontade do Pai: quem vê o Filho e Nele crê tem a Vida eterna, e Eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,39-40).
Jesus está saciado porque naquela Samaritana que acreditou estão simbolizados todos os pagãos que irão Nele acreditar e ter a Vida eterna. Naquela mulher está presente a Igreja vinda dos gentios, fruto da pregação dos Apóstolos a todas as nações. Jesus está agora plantando o que os Apóstolos e a Igreja de todos os tempos irão colher, fruto da Sua paixão, morte e ressurreição, que culminarão com dom do Espírito, água que jorra para a Vida eterna.

Por isso o nosso Salvador utiliza a imagem poética da messe pronta para a colheita. Era o tempo de ceifa e os campos estavam repletos do trigo amarelado, maduro. Jesus olha o trigal e pensa na Samaritana, nos samaritanos que estão chegando, nos pagãos do mundo todo que virão... Olha para o trigal e pensa na colheita da Igreja tempos afora: os campos estão prontos para a messe; Ele é o ceifeiro, pois acaba de colher a fé no coração de Samaria! Os Apóstolos que colherão um dia o fruto da pregação já podem se alegrar com Ele, que acaba de semear e colher a fé dos samaritanos que estão chegando, trazidos pela mulher... E assim será pelos séculos, até o fim do mundo: a pregação dos Doze e de seus sucessores nada mais será que colher o que Jesus semeou com Sua morte e ressurreição, sendo grão de trigo que cai na terra, morre e dá fruto (cf. Jo 12,24).

Bendito sejas Tu, divino Semeador!
Bendito sejas Tu que com Teu suor, Teu cansaço,
Tuas andanças e Teu sangue
plantaste o Reino do Pai
que brota em cada coração que em Ti crê
e vive a Tua Palavra!

Bendito sejas Tu, divino Trigo,
grão miúdo,
que caindo por terra e morrendo,
dás espigas de Vida eterna!

Bendito sejas, porque nossos antepassados receberam o Evangelho,
Bendito sejas, porque acreditaram nos Teus pregadores,
Bendito sejas porque, crendo, nos transmitiram a fé,
e hoje somos colheita Tu, grãos de Ti, Espiga bendita,
membros e filhos da Igreja Tua, nascida do Teu sangue fecundo!

Nós Te adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo,
porque pela Tua
Encarnação,
Paixão,
Morte
e Ressurreição,
remiste o mundo inteiro!

...

O silêncio

" O silêncio responde até mesmo aquilo que não foi perguntado..."